Eduardo Longo formou-se pela Faculdade de Arquitetura Mackenzie, em 1966, e pertence à geração de arquitetos que se lançaram na busca de novos caminhos como forma de superar o impasse gerado pelo esvaziamento do movimento moderno.

Em 1964, Longo projetou a Casa do Mar Casado. Primeiro projeto significativo, tornou-se um marco em sua carreira. Trata-se de uma casa de praia localizada no município do Guarujá.

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Na época, Longo cursava o terceiro ano de arquitetura e resolveu levar o projeto para ser desenvolvido na escola, onde contou com a assessoria do professor Franz Heep, arquiteto de origem tcheca, e que contribuiu em São Paulo com projetos significativos, como por exemplo, o Edifício Itália.

Foi um projeto divulgado em diversas publicações, mas é interessante considerar que esta casa, além da plástica singular, prioriza questões relativas ao uso, também de forma independente. Ao invés de buscar a transparência, privilegiando a presença da paisagem a partir dos ambientes, o que muitas vezes é esperado em uma casa de praia, optou por um partido intimista, com aberturas estudadas cuidadosamente para controlar a luz.

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Longo considerou que depois da exposição ao sol as pessoas desejam refúgio e repouso à sombra. Assim, projetou domus circulares no teto, para a dissipação do ar quente. Combinou essa solução com pintura externa, na cor branca, a qual favorece a reflexão do calor. A desconcertante originalidade de concepção dos espaços internos, mediante a recusa de qualquer regularidade e simetria, a ausência do ângulo reto, paredes não paralelas, e a cobertura em concreto armado inclinada e facetada, são algumas de suas características.

A casa gerou polêmica. Críticas desfavoráveis ocorreram principalmente porque seu projeto, que seguia uma linha organicista, entrava em choque com a corrente arquitetônica da denominada “Escola Paulista”, que defendia princípios racionalistas, expressão plástica a partir da estrutura, volumes prismáticos, pilares diferenciados, enfim, projetos que, não obstante suas indiscutíveis qualidades, tentavam ainda colocar em uma perspectiva adequada as festejadas conquistas de Vilanova Artigas.

Depois de sua passagem pelo racionalismo, Longo retorna às origens projetando uma seqüência de casas que seguem a linha arquitetônica organicista da primeira.
A Casa C. Lunardelli, de 1968, também no Guarujá, pertence a essa seqüência.

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Como ela não está localizada na praia, Longo buscou uma implantação que favorecesse a vista para o mar. Sua volumetria é marcada pela justaposição de três pirâmides, e uma torre cilíndrica para caixa d´água em concreto aparente.

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Uma laje plana integra os quatro volumes e compõe o acesso e hall de distribuição. A cada uma das pirâmides foi atribuída função específica: dormitórios que se abrem para um jardim interno com iluminação e ventilação resolvidas mediante laje pergolada; os serviços, com a mesma solução de cobertura já descrita; salas de jantar e estar com grandes aberturas integradas à área externa, e sobre a sala, em mezanino, foi planejada a suíte principal, com amplo terraço.

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MUDANÇA DE RUMO

Depois de uma bem sucedida seqüência de projetos, Longo decide, em 1972, recusar encomendas, aceitando apenas reformas residenciais, pois “não queria ocupar terrenos vazios com novas construções”. É quando mergulha em um tumultuado repensar existencial e profissional.
A reforma de sua casa-escritório traduz o resultado desse processo que durou quase dois anos. Longo simplificou drasticamente seus hábitos de consumo, reduziu seus pertences e concentrou no mezanino seu espaço privado, em 42 m2. Além disso, abriu o pavimento térreo para o público, criando uma passagem de pedestres entre as ruas Amauri e Peruíbe, como uma pequena praça. Buscou respostas também através da pintura, usando todas as paredes internas de seu habitat como suporte, antes de demoli-las.

DUAS CASAS BOLA

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Em 1972, Longo decide construir uma maquete em escala 8:10 da Casa Bola a ser implantada na cobertura de sua casa-escritório. Assim, Inicia-se um processo que culminará na transformação da maquete em residência do arquiteto.

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Para viabilizar a implantação e atender a exigências legais de recuos do terreno, o diâmetro original de dez metros foi reduzido para oito, o que é observável na compactação e austeridade franciscana nos ambientes das três suítes, sala de estar, lavabo social, cozinha, dormitório de empregada e lavanderia.

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Trendy-Blog-02-10-16-Arquitetura-Design-Eduardo-Longo.jpgQuarto casal
Trendy-Blog-02-10-16-Arquitetura-Design-Eduardo-Longo.jpgSala de Estar

A estrutura é composta por tubos metálicos, distribuídos em meridianos e paralelos; a vedação externa foi executada em argamassa armada e as vedações internas foram executadas com blocos de cimento celular. O sistema construtivo da casca foi desenvolvido com o amigo Charles Holmquist, que tivera experiência com ferro-cimento na construção de barcos.

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Foram cinco anos de pesquisa e aprendizado em um verdadeiro exercício de humildade. Sua dedicação extrema transcende a atuação convencional do arquiteto, pois construiu a maior parte dessa obra com as próprias mãos.

Trendy-Blog-02-10-16-Arquitetura-Design-Eduardo-Longo.jpgSala de jantar
Trendy-Blog-02-10-16-Arquitetura-Design-Eduardo-Longo.jpgCozinha

Em 1981, Longo empreende a Casa Bola 2, no bairro do Morumbi, em São Paulo.

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Encomendada pelos pais, ela possui programa e organização das funções que a diferencia da anterior: cozinha, escritório e sala de jantar ao nível da rua; duas suítes no pavimento superior e uma grande sala de estar que ocupa todo o pavimento inferior. A circulação interna foi resolvida por meio de rampa cujo percurso permite visualizar os três níveis e a paisagem externa. Na porção frontal do lote, há um bloco anexo que abriga a garagem coberta por terraço e, no nível inferior, as áreas de serviço.

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Longo aperfeiçoou a estrutura metálica, dispondo os tubos por eixos verticais e horizontais para maior flexibilidade na distribuição dos caixilhos. Além disso, implantou a Bola sobre uma única coluna elevada em terreno fortemente inclinado, fato este que contribuiu com uma maior expressão plástica. Desta vez, a execução ficou a cargo de uma empresa de engenharia, sob a supervisão do arquiteto.

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Eduardo Longo desenvolveu cento e vinte projetos, construídos, não construídos e teóricos. Mas foi a Casa Bola, que hoje pode ser considerada um dos ícones da arquitetura contemporânea, que lhe conferiu maior visibilidade, inclusive internacionalmente. Mas, este documento procura resgatar, principalmente, o conjunto de sua obra, rica em experiências conceituais, comportamentais e técnico-construtivas, do arquiteto que soube combinar, de forma inusitada, o comportamento rebelde dos anos sessenta e setenta com o rigor monástico das corporações de ofício medievais.

“Sobre bolas e outros projetos”, é o nome do livro que comemora os 40 anos de carreira do arquiteto. Imperdível!

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